Preâmbulo
Decreto Presidencial n.º 256/11
de 29 de Setembro
Considerando que a transformação do sector energético
nacional assume-se como uma das prioridades na promoção
do desenvolvimento económico e social sustentável do País
e que os desafios de reforço de capacidades e de infra-estruturas e as alterações que se perspectivam ao longo da cadeia
de valor dos subsectores energéticos, sugerem a revisão do
actual paradigma energético;
Considerando que a luz desta realidade, urge dispor da
Política e Estratégia de Segurança Energética Nacional, que
define as principais orientações estratégicas para o sector, em
particular para o subsector eléctrico e para o subsector
petrolífero e de gás natural, e redefine o enquadramento institucional do sector, com base no reforço das funções de
regulação, na clarificação de responsabilidades e na capacitação dos recursos:
Havendo necessidade de definir a entidade de coordenação dos subsectores no âmbito da Política e Estratégia de
Segurança Energética, com um âmbito de intervenção que
inclui a avaliação do nível de segurança energética a curto,
médio e longo prazos , em particular do aprovisionamento de
energia eléctrica, a monitorização e coordenação ao mais alto
nível de todas as actividades em curso, a coordenação do planeamento estratégico intersectorial, e o apoio na definição
do plano estratégico integrado para o subsector da energia
eléctrica.
O Presidente da República decreta, nos termos da alínea d) do artigo 120º e do n.º 3 do artigo 125º, ambos da
Constituição da República de Angola, o seguinte:
Artigo 1.º#
É aprovada a Política e a Estratégia de
Segurança Energética Nacional.
Artigo 2.º#
É atribuída a coordenação dos subsectores
no âmbito da Política e Estratégia de Segurança Energética à
Comissão do Conselho de Ministros para o Sector Produtivo.
Artigo 3.º#
O Grupo Técnico do Sector Produtivo
assume o apoio técnico da respectiva Comissão na coordenação e supervisão dos programas no âmbito da implementação da Política e a Estratégia de Segurança Energética e em
particular do subsector da energia eléctrica, para o efeito,
pode recorrer a outros especialistas de reconhecida capacidade técnica.
Apreciada em Conselho de Ministros, em Luanda, aos
31 de Agosto de 2011.
Publique-se.
Luanda, aos 20 de Setembro de 2011.
O Presidente da República, José EDUARDO DOS SANTOS .
SUMÁRIO EXECUTIVO
O presente documento foi elaborado entre Junho e Agosto
de 2011, baseado na síntese de Estratégia Energética para
Angola realizada no quarto trimestre de 2009 e actualizado
para reflectir os principais desenvolvimentos ocorridos nos
dois anos decorridos. Para a realização deste estudo foi analisado um conjunto de documentos entretanto produzido, de
onde se destacam os seguintes:
Processo de Implementação da Reforma do Sector
Eléctrico de Angola — Relatório Final;
Programa Nacional de Electrificação Rural (incluindo
os subprogramas de pequena geração hidro-eléctrica (mini-hídricas), Electrificação solar (Aldeia
Solar) e pequena Geração Térmica);
Estratégia de Modernização e Reestruturação das
Empresas Públicas de Electricidade e respectivo
n.º 22:
Proposta para o Reforço e Expansão da Energia Eléctrica a todo o Território Nacional, Estudo — Parcerias Público-Privadas para o Sector Eléctrico
de Angola (documento de análise sobre modelos
potenciais de Parcerias Público-Privadas a implementar em Angola);
Programação Financeira Anual para o Período 2010-
-2015 — Projectos estruturantes do Sector Eléctrico e Projectos de Energia Eléctrica em Angola
(Curto-Médio Prazos):
Para além disso foi também consultada a legislação
entretanto publicada sobre o tema, nomeadamente no que se refere à reorganização das
empresas públicas de electricidade, definição de
enquadramento regulatório na definição de tarifas e remuneração de activos energéticos, bem
como à criação do Fundo Petrolífero.
Importância da transformação requerida no sector
energético em Angola.
O desenvolvimento económico e social futuro de
Angola requer que o sector energético multiplique por quatro a sua oferta até 2025 (consumo de
25 milhões de toneladas equivalentes de petróleo), assegurando um abastecimento regular, de
qualidade e a custos competitivos às empresas e
populações:
A matriz energética angolana deverá sofrer alterações
profundas, com o subsector eléctrico a aumentar
O seu peso na matriz de forma significativa (dos
3% actuais para 10-15% em 2025) e o subsector
petrolífero a aumentar igualmente a sua importância (de 33% para cerca de 45-55%), em detrimento do elevado peso actual da biomassa;
Ao contrário de muitos outros países, a extraordinária
riqueza de recursos em Angola (e o perfil destes
recursos) permite uma convergência dos três
objectivos principais da política energética, tipicamente conflituantes (segurança e autonomia
energética, eficiência em custos, sustentabilidade
ambiental). Esta situação confere uma posição
privilegiada a Angola na resposta aos desafios
que enfrenta.
Orientações estratégicas para o subsector eléctrico.
A actual situação de «crise» do subsector eléctrico
(elevada inoperacionalidade e irregularidade no
abastecimento das populações e empresas, falta
de capacidade em toda a cadeira de valor) e, por
outro lado, o enorme desafio associado ao crescimento a longo prazo (necessário multiplicar por
9 a oferta actualmente existente) requer uma
actuação estruturada em dois horizontes;
A curto prazo é urgente assegurar a concretização dos
projectos em curso, nomeadamente do «Programa Executivo do Sector Eléctrico» (PESE),
com o objectivo de, até 2012, duplicar a capacidade que estava disponível em 2009, assegurando a reabilitação e reforço imediato das
infra-estruturas, iniciando o processo de redução
de subsídios nas tarifas ao cliente final, e lançando a implementação do Programa Nacional
de Electrificação Rural. Finalmente, importa
tomar desde já as decisões para iniciar o investimento estruturante (de longo prazo) na geração:
CCGT (400-800MW) com base no gás do Soyo,
hídricas (projectos em curso ou em fase avançada), e de pet-coke (250-350MW) — ou investimento alternativo (dependendo da configuração
final da Refinaria do Lobito):
A longo prazo, a transformação do subsector requer
uma actuação em torno dos seguintes eixos:
Forte crescimento do parque de geração (dos
actuais 1IGW para 9GW em 2025), essencial-
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mente assente nos recursos hídricos e no gás
natural;
Potenciação do papel das energias renováveis
como tecnologias importantes para os sistemas isolados, com especial enfoque para os
pequenos aproveitamentos hídricos e, em
situações pontuais, para as energias eólica e
solar, nos casos em que a competitividade em
custos e/ou a indisponibilidade de alternativas
o justifique. À geração com base em outros
recursos endógenos (p.ex., combustão de
resíduos sólidos urbanos e resíduos florestais)
poderá assumir um papel complementar (tanto
no sistema interligado como em sistemas isolados) devendo ser avaliada a competitividade
em custos e outras externalidades em cada
caso específico. A potenciação das energias
renováveis deverá passar pela implementação
de políticas públicas e enquadramentos regulamentares ajustados à competitividade de
cada fonte energética, como forma de fomentar o investimento nos mesmos.
Expansão da electrificação, considerando o papel central
de alguns sectores produtivos no desenvolvimento económico angolano e atingindo, de uma forma geograficamente
equilibrada (ou seja, com uma preocupação de inclusão dos
meios rurais 50% a 60% da população até 2025:
Actuação significativa a nível das tarifas com
vista a assegurar a sustentabilidade económico-financeira do subsector e dos seus operadores (as tarifas cobrem actualmente apenas
20% dos custos do sistema):
Reforço das valências dos operadores do subsector, garantindo-lhes simultaneamente escala
mínima e foco de actividade, o que deverá
requerer um rearranjo do actual modelo organizativo-empresarial, através da criação de
entidades públicas únicas especializadas em
cada uma das etapas da cadeia de valor (produção, transporte e distribuição/comercialização), tal como preconizado, por exemplo, na
Estratégia de Modernização e Reestruturação
das Empresas Públicas de Electricidade e
no recente estudo sobre a Reforma do Sector
Eléctrico de Angola, resultando na seguinte
configuração institucional para o Sector
suportada em 5 entidades distintas:
MINEA na definição de políticas e estratégias para o
sector Eléctrico;
IRSE (Instituto Regulador do Sector Energético) e
AREA (Agência Reguladora de Energia Atómica) para regulação do sector Eléctrico, que
inclui definição de tarifas e modelos de transferência de receitas entre os diferentes actores do
sistema;
Empresa pública exclusivamente dedicada à gestão
dos activos de Produção, a resultar da fusão de
activos de produção da ENE e do GAMEK;
Empresa pública dedicada ao Transporte de energia
em linhas de alta tensão e gestão do sistema;
Empresa pública dedicada à Distribuição, a resultar da
fusão dos activos de distribuição da ENE, EDEL
e Munícipios, concessionária responsável por
todas as redes de distribuição com possibilidade
de desenvolvimento de estruturas locais quando
tal se afigurar vantajoso.
Promoção da entrada de capital privado e de
know-how de construção e operação no
subsector, em casos específicos a detalhar,
através, nomeadamente, da celebração de Parcerias Público-Privadas para a construção e
concessão de equipamentos de produção e
transporte, bem como do estabelecimento na
geração de regimes remuneratórios atractivos
para investidores privados através de PPAs
para grandes projectos interligados e feed-in
tariffs para projectos isolados de menor
dimensão:
No caso específico das centrais a Gás Natural,
CCGT, entrada da SONANGOL em conjunto
com a ENE, integrando verticalmente com as
valências de Gás Natural existentes, nomeadamente o acesso privilegiado desta empresa
a recursos de gás natural e o seu know how
operacional no sector;
No total, a execução do programa de transformação
do subsector eléctrico implica um investimento
de 13 mil milhões de dólares até 2025.
Orientações estratégicas para o subsector petrolífero e de gás natural.
A prioridade estratégica deverá ser a maximização da
captura de riqueza para Angola, para o que será
necessário desenvolver novas capacidades no
subsector e aumentar a angolanização da actividade económica, a par da racionalização dos elevados investimentos previstos para o subsector;
No upstream, é crítico reforçar o papel da SONANGOL
como operador (crude e gás natural) e definir o
modelo regulatório para potenciar o investimento
na exploração de gás natural;
Na refinação, existe um elevado potencial de criação
de valor associado à optimização integrada dos
dois projectos existentes (Lobito e Luanda) e à
sua implementação nos prazos previstos e com
elevada eficiência na execução do investimento;
Na logística de produtos derivados, os investimentos
previstos, apesar de colmatarem as lacunas existentes, apresentam um elevado potencial de
racionalização (poupanças totais superiores a
2 mil milhões de dólares), pelas vias: (1) de
racionalização da armazenagem prevista para
reservas estratégicas, e (2) de captura de sinergias entre projectos da logística, distribuição e
refinação (explorando modos alternativos de
transporte, como são o pipeline e o transporte ferroviário);
Na distribuição, deverá ser tendencialmente eliminada
a subsidiação ao consumidor final (as tarifas
actuais cobrem apenas um terço a metade do
custo real de abastecimento, gerando um défice
anual de cerca de 2 mil milhões de dólares no
subsector), e promovido o aumento acentuado da
rede de postos em cerca de 500-1.000 postos até
2015, para o qual a recente liberalização constituiu um primeiro passo. À massificação da utilização de GPL através do reforço da rede de
distribuição (e de subsídios iniciais e selectivos
ao consumo) é crítica para a redução do consumo
de biomassa;
A execução do programa implica um investimento
de 13 a 15 mil milhões de dólares até 2025
(excluindo o upstream de petróleo e gás natural).
Modelo institucional.
Para responder de forma efectiva aos desafios de
desenvolvimento de capacidades e infra-estruturas, e acomodar as alterações que se perspectivam no funcionamento do sector energético ao
longo da cadeia de valor (como, por exemplo, a
maior participação de privados), é importante
rever o enquadramento institucional do sector,
robustecendo as funções de regulação, através da
clarificação de funções e responsabilidades, e do
desenvolvimento das competências necessárias.
Em particular, de verão ser definidos os termos da
definição de tarifas através do IRSE e uniformização e redução progressiva da subsidiação
atribuída ao sector energético;
Adicionalmente, e face à escala de transformação
necessária e ao significativo esforço de coordenação entre subsectores, recomenda-se que o
esforço de transformação do Sector venha a integrado no âmbito da já existente Comissão do
Sector Produtivo (CSP) — que coordenará e
monitorizará ao mais alto nível todas as actividades em curso, incluindo o planeamento estratégico intersectorial e a definição do plano estratégico integrado para o sector energético a longo
prazo. No contexto desta Comissão, as competências do Grupo Técnico do Sector Produtivo
serão reforçadas com valências orientadas à execução dos planos para o Sector Energético;
Duas alternativas para ao âmbito de actuação do CSP
no Sector Energético:
Foco na globalidade da Estratégia e Política Energética de Angola, incluindo Petróleo, Gás
Natural e Energia Eléctrica;
Foco no Sector Eléctrico e suas prioridades de
actuação no curto e médio prazos.
Neste contexto, perante a maior urgência dos desafios
do Sector Eléctrico e face ao maior desenvolvimento do sector petrolífero de Angola, é recomendado que a CSP centre os seus esforços na
Reforma do Sector Eléctrico. Como tal, o Grupo
Técnico do Sector Produtivo e será essencialmente reforçado com valências dirigidas aos
desafios do Sector Eléctrico, e terá como prioridade a execução das Linhas de Actuação do subsector eléctrico.
INTRODUÇÃO
O Executivo angolano aprovou a 14 de Janeiro de 2009 a
constituição da Comissão Interministerial para a Segurança
Energética de Angola, com as responsabilidades de definir a
estratégia e política energética de Angola, elaborar o pro-
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grama de segurança energética nacional e, finalmente, elaborar uma proposta de modelo institucional para o sector.
O presente documento pretende sintetizar as conclusões
dos trabalhos da Comissão e apresentar as principais recomendações para aprovação pelo Governo, encontrando-se a
esse efeito estruturado em cinco secções:
Numa primeira secção, é brevemente exposto o contexto de partida, onde se estabelece a urgência do
desenvolvimento célere da oferta energética e se
estabelecem os princípios orientadores que devem
enquadrar a estratégia e a política do sector;
Numa segunda secção, são apresentados o diagnóstico
e as orientações estratégicas para o subsector
eléctrico, com caracterização da situação actual
do subsector e identificação de objectivos e prioridades estratégicas para actuação (incluindo as
linhas de actuação nas energias renováveis);
Numa terceira secção, são apresentados o diagnóstico
e as orientações estratégicas para o subsector
petrolífero e de gás natural, também com caracterização da situação actual do subsector e identificação de objectivos e prioridades estratégicas
para desenvolvimento deste subsector;
Numa quarta secção, é exposto o impacto das orientações estratégicas propostas em termos da sustentabilidade ambiental do novo paradigma energético
angolano;
Numa quinta secção, é apresentada uma proposta para
evolução do modelo institucional, com o duplo
objectivo de reforçar os mecanismos de supervisão e coordenação no seio do sector energético e
de assegurar a concretização com sucesso das
prioridades estratégicas delineadas;
Finalmente, numa sexta secção, é apresentado um programa de acção sintético com as prioridades concretas de actuação no sector.
Contexto de partida.
À economia angolana ambiciona crescer de forma sustentada e significativa nas próximas décadas, com as previsões até 2025 a apontarem para um crescimento acumulado
do PIB não petrolífero na ordem dos 180% (i.e., triplicar da
dimensão em cerca de 15 anos).
Para que este crescimento e o desenvolvimento económico e social associado se concretizem, é essencial dar res-
posta às crescentes necessidades de consumo de energia, assegurando um abastecimento regular, de qualidade e a custos
competitivos às empresas e populações.
Com efeito, e para alimentar o crescimento esperado no
PIB, Angola terá de aumentar o seu consumo energético total
até 2025 em quase 300% face a 2008, quadruplicando a energia total consumida e atingindo um consumo anual estimado
em cerca de 25 milhões de toneladas de petróleo equivalentes.
A par com este crescimento no consumo total energético,
é previsível que se assista a uma alteração importante na configuração da matriz energética angolana, com fontes mais eficientes e sustentáveis a ganharem peso no mix (por exemplo,
crescimento, até 2025, do peso da electricidade de 3% para
10-15% e do peso dos derivados de petróleo de 33% para 45-
-55%, em detrimento do peso da biomassa).
No sentido de responder de forma efectiva aos desafios
importantes que o sector energético enfrenta actualmente, a
Comissão Interministerial para a Segurança Energética estabeleceu quatro princípios orientadores da futura estratégia e
política energética:
Estabelecer a energia como alavanca de desenvolvimento económico, garantindo uma oferta de qualidade e com custos controlados como fonte de
competitividade do tecido empresarial;
Promover o abastecimento universal de energia,
desenvolvendo as infra-estruturas necessárias e
fornecendo energia a preços acessíveis para a
generalidade da população;
Incentivar a eficiência do funcionamento do sector
energético, regulamentando para promover a
qualidade do serviço e garantindo o equilíbrio
financeiro dos agentes no sistema;
Promover o desenvolvimento equilibrado da sociedade e economia angolanas, desenvolvendo
opções que visem diminuir as assimetrias sociais
e geográficas e constituindo um mix energético
diversificado que privilegie as energias endógenas, a segurança energética e a sustentabilidade
ambiental.
A riqueza de recursos da economia angolana permite uma
convergência entre objectivos-chave da política energética.
Com efeito, as opções estratégicas delineadas (designada-
mente, a aposta num mix de produção eléctrica assente em
centrais hídricas e em CCGTs) permitem simultaneamente
reforçar a segurança energética pela disponibilidade endógena das fontes primárias associadas a estes meios de produção, assegurar a eficiência em custos pela competitividade
elevada destas tecnologias, e ainda, promover a sustentabilidade ambiental. Esta situação confere a Angola uma posição
privilegiada para responder aos desafios que enfrenta a nível
energético.
Subsector Eléctrico — Diagnóstico e Orientações
Estratégicas.
Principais elementos do diagnóstico:
O subsector eléctrico apresenta uma infra-estrutura
subdimensionada face à procura, facto que é
agravado pela elevada inoperacionalidade e ineficiência dos activos existentes. O sistema apresenta custos elevados, em paralelo com uma
política de forte subsidiação que isola os clientes
finais dos custos económicos reais, resultando
num crescente desequilíbrio financeiro do subsector, designadamente das empresas públicas
que dele fazem parte. As várias tentativas de reestruturação do subsector têm-se confrontado com
importantes desafios de implementação.
Subdimensionamento da infra-estrutura, evidenciado
por:
Significativas restrições no acesso — estima-se
que em 2008 apenas cerca de 30% da população tinha acesso a energia eléctrica (face a
benchmarks de entre 50% e 100% em países
como Nigéria, África do Sul e Brasil). As
limitações no acesso fazem-se sentir particularmente no meio rural (Quadro 1);
Fortes limitações na capacidade de produção de
energia eléctrica — estima-se que em 2008, o
sistema eléctrico tenha satisfeito apenas cerca
de 50% dos 8TWh de procura eléctrica existente anualmente, sendo a diferença proveniente de auto-geração.
Elevada inoperacionalidade dos activos (estimada
entre 40% e 50% da infra-estrutura existente ao
longo de toda a cadeia de valor), motivada por
um conjunto de factores, como a elevada intensidade de exploração, a idade avançada dos equi-
pamentos, a inexistência de manutenção regular,
ou ainda a insuficiência nas acções de reabilitação (Quadro 2):
Custos elevados de fornecimento, estimados em cerca
de 220 dólares por MWh distribuído (cerca de
60% superiores aos valores de referência), motivados por perdas técnicas elevadas (cerca de 15%
da energia produzida face a benchmark de 10%),
e pela desadequação e ineficiência da infra-estrutura de produção ao longo de três dimensões:
(1) elevados custos variáveis das tecnologias utilizadas (em particular pela utilização de combustíveis dispendiosos), (11) elevados investimentos
unitários (vs benchmarks internacionais), e (iii)
inoperacionalidade elevada do sistema (a gerar
reduzida disponibilidade e utilização dos activos)
(Quadro 3);
Elevada subsidiação, com a manutenção de uma tarifa
média de 42 dólares por MWh, suportando o
Estado cerca de 80% do custo total do sistema.
Este desequilíbrio é agravado por um nível elevado de perdas comerciais, quer pela via de ligações irregulares e fraudulentas (cerca de 50% do
total), quer por não pagamento ou outras deficiências no ciclo comercial. Se considerados
estes factores, a tarifa média resultante que é
efectivamente cobrada é de apenas 26 dólares por
MWRh distribuído, gerando-se um desequilíbrio
financeiro de cerca de 800 milhões de dólares em
2008 (cerca de 2% do OGE) (Quadro 4):
Insuficiência de valências e capacidades, com
impacto a nível de aumento do risco de atrasos e
de não sincronização de projectos, de redundância entre investimentos em curso, como demonstrado pela incompleta implementação das recomendações delineadas em anteriores documentos de estratégia e política subsectorial;
DéTfices financeiros estruturais das empresas públicas
do subsector, que resultam em grande medida dos
factores acima descritos e que contribuem também para o seu agravamento, num ciclo auto-alimentado de tendência negativa. Estes défices
financeiros resultam numa situação patrimonial
insustentável numas perspectiva empresarial
estrita, que dificultam grandemente o recurso ao
crédito privado e exigem da parte do Estado um
comprometimento de capitais excessivo face à
dimensão dos activos subjacentes.
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No seu conjunto, estas lacunas limitam fortemente a
capacidade do sistema para fazer face às necessidades energéticas actuais e representam uma pesada herança a ultrapassar para responder aos desafios do futuro.
Prioridades de actuação:
O contexto de partida caracteriza-se assim pela existência
de lacunas importantes na oferta eléctrica actual, com um
risco significativo de agravamento desta situação de carência
a prazo, na medida em que o aumento esperado até 2025 na
procura eléctrica (de cerca de STWh para cerca de 30 a 35
TWh por ano) virá aumentar de forma dramática a pressão
sobre o sistema.
Face a este cenário, a estratégia para o subsector eléctrico
deverá passar por dois horizontes de actuação: um horizonte
de estabilização (até 2012), em que se pretende implementar
um conjunto de iniciativas com impacto a curto-médio prazo
que contribuam para a minimização das carências actuais; e
um horizonte de consolidação (a partir de 2013), que pretende lançar as bases para uma transformação mais profunda
do subsector, capacitando-o para dar resposta segura, eficiente e sustentável às necessidades a médio e longo prazos.
No horizonte de estabilização recomenda-se a actuação
em alavancas com impacto no curto prazo, que permitam
aumentar a capacidade disponível do sistema em cerca de
2 vezes até 2012 (de -1 GW para -2 GW) de forma a
satisfazer o aumento previsto da procura. As acções devem
abranger toda a cadeia de valor, segundo cinco vectores de
actuação prioritários:
Reabilitação de capacidade inoperacional;
Reforço da capacidade da rede para prevenir
estrangulamentos;
Investimentos em tecnologias de implementação
rápida e custos controlados (nomeadamente, turbinas a gás em sistemas interligados, e mini-hfdricas, e turbinas eólicas em sistemas isolados
consoante as condições específicas locais e após
avaliação e ponderação de custos e desafios de
implementação das várias opções possíveis);
Interconexão dos principais sistemas para optimizar
a alocação da capacidade instalada e facilitar resposta a picos;
Reforço da taxa de electrificação (não só em centros
urbanos e áreas com elevado potencial económico, como pólos industriais e agrícolas, mas
também tendo também em atenção a necessidade
de desenvolvimento do meio rural.
Estas acções estavam em boa medida já previstas no
«Programa Executivo do Sector Eléctrico» 2009 (PESE), que
estimava um investimento aproximado de cerca de 4 mil
milhões de dólares até 2012, repartido em investimentos nos
sistemas interligados e isolados, ao longo de toda a cadeia de
valor do sistema eléctrico. Em particular, destacam-se alguns
exemplos:
A reabilitação de pelo menos S00M W de capacidade
produtora, onde se incluem, entre outros projectos, a modernização da central hídrica de Cambambe (4x45MW) reabilitação, (A4Ax65SMW)
alteamento e construção da central 2 (4xX6SMW)
e a construção da central do Gove (OM W), bem
como a reabilitação da rede de transporte e de
distribuição (por exemplo, a linha de 60KV
Lubango-Namibe, e as redes de distribuição das
Cidades de Luena, Ndalatando, Malanje, Menongue e Soyo):
A construção de activos para disponibilização de pelo
menos 700MW de capacidade adicional, onde se
destaca o reforço da capacidade térmica e da rede
em Luanda (200MW), a conclusão da linha de
400KV Capanda-Luanda (disponibilização de
100MW) e respectivas subestações (também com
financiamento aprovado no âmbito do Fundo de
Infra-estruturas), e a instalação de 165MW em
turbinas a gás em Cabinda, no Namibe, Dundo,
Xangongo e Ondjiva (também estas constantes
do plano de investimentos);
A interligação do sistema Norte-Centro-Sul, e a ligação da Província do Uíige ao Sistema Norte;
A electrificação de centros urbanos (p.ex. Lobito,
Luanda) e a electrificação e construção de
pequenos aproveitamentos hídricos, em sistema
isolados como Chiumbe-Dala (Moxico).
De acordo com a última versão disponível do PESE (correspondente a 2009), estavam em execução 46% dos projectos previstos no PESE (mais de 100), existindo assim um
importante caminho a percorrer para assegurar a execução
do plano no curto espaço de tempo disponível (3-4 anos).
Para o período 2011-2017 deverão ser implementadas as
prioridades de investimento já definidas, destacando-se as
seguintes (Quadro 5):
O lançamento de primeiras fases de grandes pro-
Jectos hídricos de médio-longo prazos, como
a Central 2 de Cambambe, Laúca (no rio
Kwanza) e Caculo Cabaça;
O investimento no reforço das redes de distribuição de Luanda e Novas Centralidades;
A ampliação (Cabinda) e construção de novas
centrais térmicas no Namibe, Dundo, Xangongo e Ondjiva.
Por outro lado, o desígnio de extensão da electrificação ao
meio rural é tratado por programa específico que numa primeira fase prioriza todas as sedes municipais, num total de
139 localidades, incluindo, no curto prazo, iniciativas com
impacto na electrificação de cerca de 540 mil habitantes,
incluindo projectos como:
Desenvolvimento de Subprograma de Pequena
Produção Hidroeléctrica, incluindo a realização de estudos de viabilidade e projectos executivos de 50 aproveitamentos e construção
de pelo menos & aproveitamentos com estudos de viabilidade já realizados, com o objectivo de garantir o acesso a electricidade a
cerca de 400 mil habitantes até 2014;
Desenvolvimento de Subprograma de Sistemas
de Geração Térmica, que preconiza um piloto
de 30 unidades de geração térmica com grupos de SO0K VA, implicando o acesso a electricidade a um total de 120 mil habitantes:
Desenvolvimento de Subprograma de Implementação de Sistemas Solares Fotovoltaicos,
que prevê a instalação até 2012 de 63 sistemas fotovoltaicos em 52 localidades, implicando o acesso a electricidade a um total de
20 mil habitantes.
No horizonte de consolidação recomenda-se a actuação em alavancas que permitam transformar o paradigma do
sistema eléctrico, privilegiando, em particular, a segurança
no abastecimento e a autonomia energética. Para tal, o sistema deverá garantir o aumento de capacidade 4,5 vezes até
2025 (de cerca de 2GW em 2012 para cerca de 9GW em
2025). As acções devem abranger toda a cadeia de valor,
segundo cinco vectores de actuação prioritários:
Criação de um mix de produção que privilegie a eficiência e a utilização de fontes endógenas (em
particular, os recursos hídricos e o gás natural) e
que deverá inclusivamente passar pela descontinuação progressiva de tecnologias não competitivas;
Expansão da electrificação de forma a atingir 50%
a 60% da população até 2025, prioritizando também o serviço a pólos de desenvolvimento agrícola e industrial;
Sustentabilidade económico-financeira dos operadores do subsector, com uma aproximação progressiva do preço pago pelos consumidores ao
custo completo da energia, mantendo-se possivelmente alguma subsidiação para camadas
sociais mais desfavorecidas. Esta aproximação
deverá resultar no saneamento financeiro dos
operadores, permitindo-lhes investir em infra-estruturas e recursos humanos. Este processo está
já em curso preconizando-se a passagem da responsabilidade pela definição das tarifas para o
IRSE, bem como pela definição de remuneração
dos vários activos energéticos:
Extensão e interligação dos vários sistemas eléctricos, com impacto a nível da segurança de abastecimento mas também a nível da eficiência do
investimento em activos de produção;
Promoção da utilização das energias renováveis
enquanto tecnologias preferenciais em sistemas
isolados (sempre que sejam localmente competitivas em custos e em tempo de implementação
vis-à-vis outras fontes energéticas). Esta promoção deverá dar especial atenção ao total aproveitamento dos recursos hídricos já identificados e
potenciais, à energia solar (com pilotos já a
decorrer), e potencialmente à energia eólica em
virtude dos recursos existentes em Angola, do
custo competitivo destas tecnologias (sobretudo
mini-hídrica) para servir esses sistemas, e da elevada velocidade de implementação, menores
necessidades de manutenção e dificuldades
logísticas (por exemplo no abastecimento de
combustível) face a outras tecnologias. Nos sistemas isolados onde seja adoptada energia
hídrica, solar ou eólica, deverá manter-se geração térmica e/ou sistemas de armazenamento de
energia (albufeiras e equipamentos de bombagem
em sistemas hídricos, sistemas de baterias para
equipamentos solares/ eólicos) para salvaguardar
a continuidade do fornecimento. À criação de um
quadro regulamentar e de apoio público às renováveis é um factor crítico do seu desenvolvi-
11 4561
mento, dando ao sector privado os incentivos e a
estabilidade regulatória necessários ao investimento.
Em concreto, nos sistemas interligados será de privilegiar
a construção de grandes centrais hídricas e de ciclos combinados a gás natural (CCGT), aproveitando os recursos endógenos para assegurar uma produção eléctrica a preços
competitivos (Quadros 6 e 7).
Nos sistemas isolados, as energias renováveis (em particular as mini-hídricas, e a energia eólica e solar) poderão
constituir-se como as alternativas mais interessantes não só
numa perspectiva de sustentabilidade como também numa
perspectiva económica e de celeridade em assegurar o abastecimento às populações. Sempre que tal não for possível, ou
que a interligação não seja viável, deverá ser equacionada a
geração por pequenos grupos térmicos (Quadro 8).
Adicionalmente, deverão ser consideradas outras tecnologias que se apresentem como oportunidades eficientes e
céleres de aumentar a capacidade de produção eléctrica. Em
particular, poderá ser considerado o recurso a tecnologias de
produção eléctrica através de biomassa (p.ex., resíduos sólidos urbanos, resíduos florestais) desde que a sua adopção
faça sentido do ponto de vista económico e assente numa
lógica de exploração sustentável de recursos. Por exemplo,
poderão ser criadas infra-estruturas de valorização de resíduos sólidos urbanos que realizem o aproveitamento energético dos mesmos e que fomentem a salubridade urbana.
Importa também tomar desde já as decisões necessárias
para implementar o mix mais eficiente de tecnologias,
actuando designadamente nos seguintes eixos:
O processo de lançamento da construção de uma
CCGT, com capacidade de 400 a 800MW (alimentada pelo gás do projecto Angola LNG), bem
como o alteamento e a construção da segunda
central de Cambambe, e criar uma equipa de
estudo que desenvolva o projecto de caracterização do potencial energético por fontes renováveis
em Angola, focando a sua actividade nos sistemas isolados;
Os investimentos para assegurar a criação de um sistema Leste que ligue as Províncias de Lunda
Norte, Lunda Sul, Moxico e Cuando Cubango até
2015, bem como os planos que assegurem energia aos principais pólos industriais e agrícolas;
A reabilitação transversal das redes de distribuição
MT e BT, entre outras no Uíge, Cabinda, Malanje,
Lobito, Benguela, Huambo;
A implementação das centrais hídricas do rio Kwanza,
com finalização da segunda central e alteamento
do Cambambe (960MW) e Central no Kwanza
(Laúca), correspondentes a cerca de 2GW;
Adaptação da configuração da Refinaria do Lobito
incluindo a construção de uma central a pet-coke
ou lançamento de projecto alternativo com capacidade entre 250 e 350MW.
No seu conjunto, os investimentos estimados para assegurar a transformação do subsector eléctrico totalizam cerca
de 13 mil milhões de dólares entre 2009 e 2025 e deverão ser
suficientes para satisfazer as necessidades de procura durante
esse período (Quadro 9).
Alavancas de transformação do subsector:
A transformação do subsector eléctrico enfrenta desafios
muito importantes em termos de recursos financeiros e
humanos, que não podem ser resolvidos de forma célere dentro do actual modelo regulatório e institucional.
O modelo de participação pública e privada do subsector deverá promover a entrada de capital privado e de knowhow de construção e de operação no subsector, sendo que a
celebração de Parcerias Público-Privadas poderá ser considerada em casos específicos, e após ponderação de riscos e
eventuais impedimentos decorrentes da utilização desta
solução (em particular na produção e transporte). É igualmente crítico assegurar que os operadores possuem a escala,
os recursos e o foco que lhes permita fazer face aos novos
desafios de transformação. Adicionalmente, deverá promover-se uma reestruturação das empresas públicas, assegurando um reforço de valências e da eficiência (Quadro 10).
Na produção, os novos investimentos deverão ser
abertos ao capital privado, complementando os
potenciais investimentos públicos, uma vez que
esta é a área da cadeia de valor com maiores
lacunas em capital financeiro e humano, e que
tradicionalmente mais atrai operadores privados.
O operador público incumbente deverá concentrar toda a infra-estrutura de produção existente
actualmente (incluindo o aproveitamento Hidro-
Eléctrico do Capanda) e também deter um papel
determinante em novos investimentos públicos —
em moldes a definir de forma mais detalhada
num momento futuro. Nos investimentos de produção a partir do gás natural advoga-se um
modelo de parceria entre à SONANGOL-E--P,, e
a ENE considerado desejável, dado o acesso privilegiado da primeira empresa a recursos de gás
natural e o seu know how operacional no sector;
No transporte, deverá actuar um operador público
único, focado no desenvolvimento da infra-estrutura de base e que garanta uma visão integrada
do sistema. O operador deverá ainda coincidir
com o operador de mercado e de comprador
único para os geradores privados. (Quadro 11);
Na distribuição e comercialização, propõe-se a centralização de todos os activos de distribuição
existentes — ou pelo menos da sua grande maioria — numa entidade pública única, possibilitando
desta forma maior sinergia operacional, potenciação do escasso talento existente, homogeneização de processos, aprovisionamentos e
tecnologias. Poder-se-á também equacionar, se
se entender necessário à luz da Lei Geral da Electricidade, o estabelecimento de concessões
(Quadros 12 e 13);
O modelo proposto é ainda compatível com a possível
criação futura de uma holding nacional que
agrupe as empresas públicas de produção, transporte e distribuição, em função da aspiração
estratégica que se tenha para o subsector eléctrico. Do ponto de vista estratégico, esta opção
permite o desenvolvimento de um grupo de
relevo a nível nacional e potencialmente a nível
internacional, resultando também num reforço da
capacidade de atrair talento, de desenvolver
capacidades e de captar recursos nos mercados
financeiros. Este modelo corporativo poderia ser
flexível, podendo a prazo permitir a separação da
empresa de transporte da holding, à imagem do
que acontece em outros países (p.ex., REN em
Portugal), dada a importância crítica deste negócio em termos de serviço público;
O novo modelo empresarial acima descrito — que
representa uma alteração significativa do actual
panorama — é um elemento fundamental da nova
Estratégia Energética nacional. A implementação
desta nova estrutura empresarial por si só não é
contudo suficiente para dar resposta aos desafios
enfrentados, sendo também indispensável garantir a eficácia dos novos veículos empresariais. À
eficácia das novas (ou reformuladas) empresas
públicas do sector eléctrico depende em parte da
resolução dos problemas estruturais do sector,
designadamente no que diz respeito ao gap tarifário e à insuficiência de valências técnicas, mas
também de garantir o saneamento dos balanços
destas empresas e a sua adequada capitalização.
Apenas nestas condições estas empresas terão
capacidade de, gradualmente, acederem ao crédito bancário e, dessa forma, reduzirem a sua
dependência do accionista estatal. Esse saneamento financeiro é também essencial para permitir a adopção das práticas de gestão empresarial preconizadas.
O enquadramento regulatório deverá ser revisto para permitir a coexistência de investimentos públicos com atracção
de investimentos privados na construção de nova capacidade
de produção (e eventualmente transporte). Adicionalmente, a
estrutura tarifária a clientes finais deverá ser única em todo
o País, com um objectivo de convergência das tarifas para os
reais custos do sistema, permitindo, a prazo, a sustentabilidade financeira das empresas públicas do sector.
Os recursos financeiros necessários à realização do
plano energético deverão ser disponibilizados
através de um Fundo, financiado por um leque
abrangente de fontes, como por exemplo receitas originárias da produção de petróleo, impostos e taxas de concessão e multas;
Em determinados casos, a detalhar, pode ainda ser
considerada a celebração de Parcerias Público-
-Privadas (PPP) como forma de contornar a
necessidade intensiva de capitais nesta fase de
investimentos e reforço de infra-estruturas, que
permitem ao governo a partilha com investidores privados dos custos e/ou riscos específicos de
cada projecto. Existem vários modelos possíveis,
a seleccionar de acordo com as características do
projecto específico, nomeadamente no que se
refere à responsabilidade pela construção, propriedade das infra-estruturas (Governo ou entidade privada) e duração do período da concessão
(podendo no limite ser indefinido). A adopção de
PPP deverá exigir da parte da entidade pública
responsável, o desenho e monitorização cuidadosos do desempenho de cada uma das PPP, para
assegurar a máxima eficiência e eficácia;
Para garantir uma remuneração atractiva para o sector privado, mas sem comprometer a eficiência
11 4563
de custos por parte do Governo e dos utilizadores
finais, propõe-se o regime de PPA como instrumento privilegiado para o investimento e operação de novas unidades de produção de grande
dimensão (superiores a 1IOMW). Este modelo
permite algum grau de competição, potenciando
dessa forma os níveis de eficiência, mas evita
desregular totalmente o mercado, tornando o
investimento menos arriscado e logo mais atractivo para um investidor privado. Ao operador
público poderá ser dada a opção de participar
como parceiro em investimentos desta natureza;
Para os projectos de menor dimensão, as tarifas feedin deverão ser o instrumento-chave de remuneração da electricidade produzida (capacidade
inferior a IOMW, mas apenas em sistemas isolados para não estimular o aparecimento de unidades de dimensão subóptima no sistema
interligado) e em unidades de co-geração. A instalação destas unidades deverá estar sujeita a
licenciamento, ficando ainda o acesso à rede
sujeito à aprovação da empresa pública operadora do sistema (Quadro 14);
As tarifas ao consumidor final serão idênticas em todo
o território nacional de forma a promover o serviço universal e o desenvolvimento económico
regional, e devendo convergir para o real custo
do sistema de forma a promover a eficiência na
utilização dos recursos. À convergência gradual e
previsível das tarifas com os custos reais do sistema é também essencial para assegurar o objectivo de sustentabilidade financeira das empresas
públicas do sector. A protecção de classes com
menores rendimentos deverá ser garantida por
tarifas sociais, cujo financiamento deverá ser
devidamente regulamentado, com obrigações
claras para todas as partes, designadamente
o Estado e as empresas públicas do sector.
(Quadro 15).
Subsector Petrolífero e de Gás Natural — Diagnóstico e Orientações Estratégicas.
Principais elementos do diagnóstico:
O subsector petrolífero e de gás natural é a principal fonte
de geração de riqueza da economia angolana, representando
quase 60% do PIB em 2008.
Ao contrário do subsector eléctrico, o subsector petrolífero e de gás natural não enfrenta uma situação de crise,
devendo a prioridade ser colocada na concretização de uma
estratégia que maximize a captura de riqueza para Angola e
racionalize os investimentos vultuosos previstos para o subsector.
No upstream de petróleo, Angola possui reservas significativas de crude, embora com uma importância crescente dos
campos em águas profundas (deep e ultradeep waters). O
principal desafio reside em encontrar o equilíbrio adequado
no modelo de concessões que maximize o valor para Angola,
reforçando a posição da SONANGOL como operador de
referência (Quadro 16).
Em finais de 2008, as reservas alcançavam 13.500
milhões de barris (reservas provadas), o que
representa 21 anos de produção, um valor próximo da mediana de 20 anos para os 50 maiores
países produtores;
A produção tem-se deslocado de forma significativa
para os campos de águas profundas (de 31% da
produção total em 2003 para 71% em 2007), o
que acarreta desafios tecnológicos e operacionais
significativos, e se traduz em elevados montantes
de investimentos e de custos de produção;
A SONANGOL apresenta uma experiência limitada
na operação em águas profundas, sendo fundamental a sua capacitação nesta área para assegurar o reforço da sua posição como operador
nacional de referência no subsector petrolífero;
No upstream de gás natural, Angola apresenta um elevado potencial exportador face ao volume do gás
potencialmente existente. O principal entrave
para a evolução do subsector é a insuficiência do
regime legal actual para estimular os investimentos (Quadro 17);
Angola tem um elevado potencial de produção de gás
natural, com reservas provadas de 270 mil
milhões de m3 (cerca de 40 anos de produção do
Angola LNG), apontando algumas estimativas
para recursos superiores a 1.200 mil milhões de
m3. A verificarem-se estes valores, Angola disporia deste recurso em quantidade bastante
superior ao potencial de consumo nacional,
devendo por isso a exploração de gás natural
focar-se prioritariamente nos mercados de exportação;
Os investimentos têm sido limitados, especialmente
nos blocos de gás não associado, resultando num
número reduzido de novas descobertas. O principal investimento concentra-se no transporte e
processamento de gás associado no projecto
Angola LNG;
O principal entrave ao investimento no subsector
encontra-se nas lacunas existentes no enquadramento legal, sendo prioritário estabelecer um
modelo de concessão específico para o gás natural, bem como definir o enquadramento legal
para as actividades de transporte e de processamento.
Na refinação de derivados de petróleo, Angola possui
uma capacidade de produção deficitária e ineficiente que
resulta em importações elevadas de produtos essenciais como
a gasolina ou o gasóleo e gera prejuízos avultados. Os projectos previstos para Luanda e Lobito apresentam um elevado potencial económico e estratégico, que deverá ser
reforçado através da optimização dos montantes previstos de
investimento (Quadro 18).
A capacidade de refinação de Angola é actualmente
composta por duas unidades de reduzida complexidade e dimensão — a Refinaria de Luanda e
a unidade móvel do Sanha — que são insuficientes para fazer face às necessidades de consumo
do País, traduzindo-se em importações anuais de
cerca de 1.000 milhões de dólares de produtos
refinados;
A Refinaria de Luanda apresenta um forte desafio
de rentabilidade, com perdas de cerca de 100
milhões de dólares por ano (excluindo os subsídios), em virtude da reduzida complexidade que
não lhe permite extrair o máximo valor dos crudes processados;
Existe um elevado potencial de criação de valor associado à optimização integrada dos projectos do
Lobito e de Luanda, com um importante impacto
ao nível da segurança de abastecimento e da
autonomia energética. À sua implementação nos
prazos previstos e com elevada eficiência na execução do investimento (total de cerca de 6 a 8 mil
milhões de dólares na Refinaria do Lobito, e um
valor superior a 2 mil milhões de dólares previsto
na Refinaria de Luanda) assume-se como fundamental para o robustecimento da capacidade
refinadora;
Na logística de produtos derivados, e em virtude do
legado histórico e do forte crescimento da procura, existem lacunas significativas ao longo de
toda a cadeia de valor. Os investimentos previstos introduzem melhorias significativas face à
situação actual, apresentando, no entanto, um
significativo potencial de racionalização (Quadro 19):
Existe um desequilíbrio significativo na distribuição
de capacidade de armazenagem, com excesso de
capacidade no Litoral e carência no Interior, existindo igualmente lacunas de capacidade em
diversos produtos:
O sistema de distribuição é ineficiente, apresentando
uma utilização excessiva de camiões-tanque, a
par de uma elevada inoperacionalidade dos activos, contribuindo para as frequentes rupturas de
stock a jusante, no retalho, com consequente
degradação do serviço aos clientes;
Os investimentos previstos para a reserva operacional
conduzirão a uma melhoria das condições de
armazenagem, mas poderão ser optimizados por
eliminação de redundâncias e por coordenação
com os investimentos previstos pela Refinação e
pela Distribuição;
Os investimentos previstos para as reservas estratégicas apresentam um potencial de poupança superior a 2 mil milhões de dólares até 2025. Os
objectivos de armazenagem foram definidos por
forma a garantir 90 dias de consumo quando,
tomando por referência os indicadores da International Energy Agency, os objectivos devem ser
definidos face às necessidades de importações
líquidas. Dado que Angola deverá ser exportador
líquido de derivados a partir de 2015, o montante
global de investimentos para reservas estratégicas poderá ser racionalizado. Adicionalmente,
os investimentos em reserva operacional deverão
ter em consideração o potencial de reconversão
da reserva estratégica a partir de 2015;
Deverão ser analisadas as alternativas de transporte
mais adequadas face às evoluções esperadas de
consumo, designadamente a construção de um
pipeline entre a futura Refinaria do Lobito e os
parques de armazenagem de Luanda, que se afigura preliminarmente atractiva face ao fluxo previsto de produtos refinados para alimentar as
necessidades de consumo de Luanda e do Norte
de Angola não supridas pela refinaria de Luanda.
11 4565
Na distribuição de produtos derivados, existem lacunas
significativas na infra-estrutura de comercialização (em particular em Luanda), a que o plano de investimentos previsto
dá uma resposta parcial. Adicionalmente, os elevados subsídios a par de margens reduzidas limitam os incentivos à
expansão de postos, e estimulam um excesso de procura e a
existência de um mercado informal significativo (Quadro 20).
A rede de Retalho é insuficiente para responder à procura actual (cerca de 133 ilhas por cada 100.000
automóveis vs benchmarks internacionais de
aproximadamente 300), sobretudo nas zonas
urbanas, em particular em Luanda (cerca de
105 ilhas por cada 100.000 automóveis);
Os investimentos previstos no Plano de Desenvolvimento da Rede da SONANGOL não são suficientes para fazer face ao aumento da procura
(objectivo de 229 ilhas por 100.000 automóveis
em 2015 vs benchmark de aproximadamente
e apresentam desequilíbrios (por exemplo,
com excesso de postos no Norte e fortes lacunas
em Luanda):
Os subsídios aos combustíveis são substanciais,
resultando no excesso de procura e num encargo
anual total de cerca 1,8 mil milhões de dólares
para o Governo (cerca de 5% do OGE). Adicionalmente, a venda de combustíveis a um preço
inferior ao seu real valor de mercado estimula um
significativo mercado informal, onde o preço é
habitualmente três a dez vezes superior ao valor
oficial em bomba.
Na produção e distribuição de GPL, o consumo tem
vindo a crescer fruto do reforço das infra-estruturas de
armazenagem e distribuição, existindo ainda assim um significativo potencial de crescimento tendo em vista reduzir o
consumo da biomassa.
O GPL é um produto altamente disponível uma vez
que Angola é (e continuará a ser) um forte
exportador líquido, e existem as infra-estruturas
de armazenagem e enchimento de garrafas para
fazer face à procura existente;
Apesar de o GPL estar a substituir o carvão vegetal
nas áreas urbanas e peri-urbanas a penetração é
ainda reduzida (consumo de 10Kkg per capita por
ano vs 27kg no Brasil), em virtude de insuficiências na cadeia de distribuição que se traduzem
em rupturas de stock frequentes nos pontos de
revenda, e em virtude dos elevados custos
relativos da caução e do fogão face aos rendimentos da maior parte da população angolana.
Prioridades de actuação:
O objectivo estratégico para o subsector petrolífero e de
gás natural deverá ser o de assegurar, de forma sustentada, o
papel de motor fundamental do desenvolvimento da economia angolana. Face ao diagnóstico apresentado, este objectivo estratégico implica duas linhas claras de actuação: em
primeiro lugar, maximizar a captura de riqueza para Angola
(aumentando a participação nacional na criação de riqueza
ao longo da cadeia de valor), e, em segundo lugar, racionalizar os vastos investimentos previstos para o subsector.
Neste sentido, e para operacionalizar os objectivos estratégicos, recomenda-se o desenvolvimento de políticas concretas obedecendo a seis linhas de actuação estratégica.
No upstream de petróleo, continuar o processo de
reforço do papel da SONANGOL como operador (crude e
gás natural), em particular através de:
Reforço da posição da SONANGOL como operador integrado com capacidades de gestão e integração de projectos em águas profundas (deep e
ultra deep water);
Manutenção da gestão das concessões na SONAN-
GOL, lançando-se uma reflexão sobre o estabelecimento de um período para a transição da
gestão das concessões para uma outra entidade:
Avaliação e estabelecimento do ritmo ideal de
extracção do crude que maximize a riqueza
criada para o País e potencie o seu desenvolvimento.
No upstream de gás natural, definir o modelo regulatório para potenciar o investimento no aproveitamento dos
recursos, e aumentar o enfoque das políticas de apoio ao programa de investimentos em exploração.
Na refinação, garantir a optimização integrada dos planos para construção da Refinaria do Lobito e para upgrade da
Refinaria de Luanda, assegurando a viabilidade económica
dos investimentos e o cumprimento dos prazos previstos.
Na logística de produtos derivados, optimizar o plano
de armazenagem e logística através de (Quadros 21 e 22):
Racionalização dos investimentos previstos em
reservas estratégicas, considerando a reconversão parcial das capacidades constituídas até 2015
em capacidades operacionais:
Optimização de forma integrada das capacidades
de armazenagem das Refinarias de Lobito e de
Luanda e da Sonangol Logística;
Avaliação de modos de transporte alternativo dados
os volumes de consumo previstos após entrada
em funcionamento da Refinaria do Lobito (por
exemplo, pipeline Lobito-Luanda, caminho-de-
-ferro Namibe-Lubango), tendo em consideração
o potencial de exportação para outros países
(Zâmbia e para a R.D. do Congo).
Na distribuição de produtos derivados, reforçar os planos existentes para assegurar o crescimento agressivo da rede
de postos de abastecimento, e aumentar a eficiência do subsector, designadamente através de quatro linhas de actuação
(Quadro 23):
Reforço do plano de investimentos e da capacidade
de construção de postos da SONANGOL;
Implementação do quadro legal para permitir a aceleração do licenciamento de postos de abastecimento em Luanda;
Aceleração da liberalização do mercado de forma a
atrair novos operadores privados para reforçar a
capacidade de construção;
Eliminação, a curto-médio prazos, da subsidiação
dos combustíveis no Retalho.
Na produção e distribuição de GPL, desenvolver um
plano operacional para a massificação do GPL, aproveitando
os recursos endógenos e promovendo a redução do consumo
de biomassa através de três linhas de actuação (Quadro 24):
Reforço da infra-estrutura de distribuição (incluindo
incrementar o número de distribuidores e de pontos de venda, aumentar a fiabilidade da rede de
distribuição, assegurar o acréscimo do stock de
garrafas em circulação), e a promoção da infra-
-estrutura de gás canalizado em novas urbanizações:;
Diminuição de barreiras económicas à utilização do
GPL, considerando a alteração do perfil de subsídios (reforçando o subsídio à caução por contraposição da redução do subsídio ao consumo),
e reduzindo a dimensão das garrafas comercializadas;
Sensibilização dos clientes para as vantagens do
GPL face ao carvão vegetal (nas zonas peri-urbanas).
A prossecução destas prioridades de actuação permitirá
aumentar a eficiência na utilização dos recursos e consolidar
a segurança energética nos combustíveis, em particular, face
à existência de recursos petrolíferos endógenos e face à criação de uma futura capacidade de refinação exportadora.
Neste contexto, e apesar de não serem necessárias fontes
alternativas de combustível numa perspectiva de segurança
de abastecimento, a exploração de biocombustíveis pode assumir-se como uma oportunidade a considerar, quer numa
perspectiva de exportação, quer numa perspectiva de consumo interno complementar. Para garantir a efectiva competitividade dos biocombustíveis, é essencial assegurar um
rendimento agrícola ao nível dos melhores do mundo.
Estas linhas de actuação deverão ser vertidas em políticas
concretas por forma a assegurar a optimização dos investimentos previstos para o subsector petrolífero e de gás natural que totalizam, à partida, valores de 12 a 15 mil milhões de
dólares até 2015 (Quadro 25).
Alavancas de transformação do subsector:
A consecução dos objectivos definidos exige alterações
ao actual modelo empresarial ao longo da cadeia de valor,
bem como ao modelo regulatório do subsector petrolífero e
de gás natural, designadamente face ao objectivo expresso
de liberalização de elementos da cadeia de valor do subsector e face a lacunas organizativas e no quadro regulamentar
(por exemplo, inexistência de um órgão regulador para o subsector petrolífero, e de enquadramento regulamentar para o
subsector de gás natural).
O modelo empresarial do subsector petrolífero deverá
sofrer alterações ao longo de toda a cadeia de valor (entretanto já aprovadas no modelo de liberalização para o subsector dos combustíveis) (Quadro 26).
A operação do upstream manter-se-á aberta a operadores
privados e à Sonangol P&P, com a gestão das concessões sob
a responsabilidade da Sonangol Concessionária;
O mercado de refinação ficará aberto a novos operadores, estabelecendo-se um regime temporário de
refinador em regime especial para a Refinaria de
Luanda (assegurando-se o escoamento de produto a preços regulados), e ficando as restantes
refinarias a funcionar tendencialmente em import
parity. É crítico assegurar que os futuros preços
ex-refinaria praticados para o mercado interno
sejam efectivamente de import parity:;
O mercado de logística ficará sob a responsabilidade
de um operador de logística único (a Sonangol
Logística) que deverá assegurar preços e níveis
de serviço idênticos a todos os operadores de distribuição. É crítico assegurar (através de supervisão do regulador) que os níveis de serviço
praticados sejam de elevada qualidade e não discriminem entre operadores da distribuição;
11 4567
O mercado de distribuição será liberalizado, permitindo-se a entrada de novos operadores para
reforçar a capacidade de cobertura do território
nacional. À implementação de postos em zonas
remotas será assegurada pelo distribuidor de
último recurso. O modelo empresarial do subsector de gás natural de verá adoptar no upstream
um modelo semelhante ao do subsector petrolífero. No downstream, e face à reduzida procura
interna de gás natural (centrada em grandes unidades industriais), o modelo deverá ser estabilizado no futuro face ao interesse demonstrado
pelos operadores (Quadro 27);
A operação do upstream será aberta a operadores privados, com a gestão das concessões sob a responsabilidade da Sonangol Concessionária. À
actividade de prospecção e exploração será responsabilidade da Sonangol P&P e da Sonagás,
sendo o desenvolvimento e produção de gás da
responsabilidade da Sonagás;
O transporte primário e o processamento de gás não
associado deverão ser da responsabilidade do
operador de cada uma das concessões (e, nessa
medida, abertos a operadores privados e à Sonagás): quanto ao gás associado deverá ser da responsabilidade do proprietário do gás;
A distribuição e comercialização deverão estar abertas
à Sonagás e a operadores privados, destinando-
-se a venda, essencialmente, à grande indústria e
à produção energética.
O modelo regulatório do subsector petrolífero sofre alterações na estrutura de preços ao longo de toda a cadeia de
valor (entretanto já aprovadas no modelo de liberalização
para o subsector dos combustíveis).
Será estabelecido um preço máximo no Retalho, idêntico em todo o País. De igual modo, será definido
um preço único idêntico à saída de cada parque
de armazenagem de logística. Assim, ficará
garantida uma margem máxima para os operadores de Retalho. É crítico eliminar a incerteza existente quanto à fórmula e montante concreto da
margem de comercialização por forma a incentivar o lançamento de investimentos privados no
Retalho;
O Governo subsidiará o operador de logística por
forma a compensar os custos diferenciados de
aprovisionamento e transporte em diferentes
áreas do País (e que não são compensadas por
preços diferenciados);
Poderão existir mecanismos de subsidiação dos operadores de Retalho para assegurar a abertura de
postos em zonas de volume reduzido.
Sustentabilidade Ambiental.
O conjunto de recomendações estratégicas foi delineado
para permitir o aproveitamento dos recursos endógenos da
economia Angolana, assegurando a convergência entre os
princípios de garantia de segurança energética, utilização das
tecnologias mais eficientes e promoção de desenvolvimento
económico e ambiental sustentável.
A promoção de uma estratégia energética com uma forte
ênfase na sustentabilidade ambiental é evidenciada por um
conjunto de propostas fundamentais:
Redução do consumo de biomassa através da massificação do GPL: a aposta no GPL, uma tecnologia relativamente «limpa», para substituição
progressiva da biomassa como recurso energético base da economia Angolana permitirá reduzir o peso da biomassa na matriz energética
Angolana de 64% para 35% até 2025, protegendo
a floresta e savana angolanas (que têm um papel
fundamental na preservação da biodiversidade e
na absorção das emissões de CO, para a atmosfera):
Racionalização do consumo através do alinhamento
das tarifas e preços com os custos de produção:
a proposta de eliminação progressiva dos actuais
níveis de subsidiação, tanto no subsector eléctrico como no subsector petrolífero (downstream), conduzida pelo IRSE, conduz à
aproximação das tarifas e preços aos seus reais
custos de produção, racionalizando o consumo
de energia eléctrica e de derivados de petróleo;
Definição de um mix de produção eléctrica com uma
reduzida «pegada de CO7»: o desenvolvimento
de um parque de produção eléctrica assente fundamentalmente em infra-estruturas hídricas e
centrais a gás natural, complementadas por sistemas descentralizados de mini-geração térmica,
hídrica e solar por substituição da actual matriz
de geração eléctrica fortemente dependente de
geradores a diesel, permite a Angola transformarse num dos países com a matriz de geração eléctrica menos poluente a nível mundial,
apresentando um reduzido número de emissões
de CO, por MWh de electricidade produzido;
Aproveitamento complementar de tecnologias renováveis: o potencial desenvolvimento de soluções
energéticas alternativas (como os biocombustíveis ou a geração eléctrica com base em resíduos
sólidos urbanos) sempre que a sua competitividade em custos esteja assegurada, permite o
aproveitamento eficiente dos recursos internos,
p.ex., através do desenvolvimento do sector agrícola ou da melhoria das condições de salubridade
nos grandes centros urbanos (pela existência de
melhores infra-estruturas de recolha de resíduos).
Angola deverá tirar partido de outras oportunidades que
possam decorrer de esforços globais de redução de emissões
de gases de estufa, como por exemplo, a realização de investimentos que possam resultar na atribuição de CDMs
(Clean Development Mechanisms19).
O conjunto de recomendações acima apresentado incorpora de forma holística a dimensão de sustentabilidade
ambiental, permitindo que Angola apresente todas as condições para, no futuro, se afirmar como uma potência líder e
pioneira em termos de sustentabilidade ambiental entre os
países em desenvolvimento.
Modelo Institucional Recomendado para o Sector
Energético Angolano.
Para responder de forma efectiva aos desafios de desenvolvimento de capacidades e infra-estruturas, mas também
para acomodar as alterações que se perspectivam no funcionamento do sector energético ao longo da cadeia de valor
(como, por exemplo, a maior participação de privados), é
importante rever o enquadramento institucional do sector,
particularmente a dois níveis:
Um primeiro, de robustecimento das funções de regulação, com clarificação de funções e desenvolvimento de competências;
Um segundo, de reforço da supervisão sobre os planos
de desenvolvimento do sector e da coordenação
entres estratégias dos subsectores, que poderá
passar pela criação de um órgão a nível interministerial.
Quanto ao robustecimento das funções de tutela e de
regulação, a recomendação é clarificar as funções regulatórias, definir as fronteiras de responsabilidade e actuação e
reforçar as valências técnicas nos dois subsectores.
No subsector eléctrico recomenda-se o reforço das competências da entidade reguladora (IRSE), clarificando as
fronteiras de responsabilidade com o Ministério da Energia e
Águas e com os operadores de mercado (em particular com
o operador do sistema e o comprador único, a assegurar pela
entidade responsável pelo transporte) (Quadro 28).
A definição da estratégia eléctrica e a planificação do
sistema deverão ficar a cargo da Comissão do
Sector Produtivo, em estreita articulação com o
Ministério da Energia e Águas. As empresas do
subsector deverão realizar o planeamento dos
investimentos, para posterior coordenação e
validação pela Comissão e o Ministério da Energia e Águas:
A responsabilidade pelo licenciamento da operação
dos equipamentos (de produção, de rede de transporte e de distribuição) e pelo licenciamento e a
fiscalização das obras de construção de novos
activos de produção deverá ser do Ministério da
Energia e Águas;
A abertura de concursos para construção e/ou operação de novos activos deverá ser da exclusiva responsabilidade do Ministério da Energia e Águas,
excepto na construção dos activos de produção,
em que Ministério e operador do sistema (que
funcionará como Comprador Único da energia
gerada) deverão actuar em conjunto:
A proposta de definição de tarifas e de preços será da
responsabilidade do IRSE (que deverá consultar
o operador do sistema sobre as tarifas na geração), sendo esta posteriormente validada pelo
Ministério das Finanças e pelo Gabinete de preços e concorrência do Ministério da Economia.
O IRSE deverá ficar responsável pela supervisão
da aplicação das tarifas e preços definidos;
A revisão de contratos de geração bilaterais entre operadores e grandes consumidores, e o estabelecimento e controlo de níveis de serviço dos
distribuidores ao cliente final serão também responsabilidade do IRSE;
A definição das normas de funcionamento e dos standards de qualidade (e respectivo controlo de
cumprimento) serão da responsabilidade do
IRSE (no transporte e distribuição) e do Comprador Único na produção.
No subsector petrolífero e de gás natural recomenda-se a
clarificação das actividades de regulação (em particular no
downstream), através da criação de uma entidade que agregue as funções regulatórias, resultando na seguinte divisão
de responsabilidades para o subsector (Quadro 29):
11 4569
A definição da estratégia no subsector deverá ficar a
cargo do Ministério dos Petróleos, em coordenação com o CSP. As empresas do subsector realizarão o planeamento dos investimentos, para
posterior coordenação e validação pelo Ministério dos Petróleos;
A responsabilidade pelo concessionamento e gestão
das concessões no upstream deverá permanecer
da responsabilidade da Sonangol Concessioná-
Tia;
A responsabilidade pelo licenciamento das operações
no downstream (refinação e distribuição) deverá
ser do Ministério dos Petróleos:
A definição de tarifas e de preços ao longo de toda a
cadeia de valor será da responsabilidade política
do Governo após proposta técnica da unidade
com funções regulatórias (que ficará responsável
pela supervisão da aplicação das tarifas e preços
definidos):
A definição das normas de funcionamento e dos standards de qualidade (e respectivo controlo de
cumprimento) serão da responsabilidade da unidade com funções regulatórias (na refinação
logística e distribuição) e da Sonangol Concessionária (na exploração e produção)”.
Em ambos os subsectores existe uma necessidade de significativo reforço de valências no sentido de assegurar o cumprimento das funções regulatórias na íntegra, devendo a
contratação e a formação de quadros técnicos nestas áreas
constituir uma prioridade estratégica.
O modelo institucional deverá ser integrado num órgão
abrangendo vários domínios — a já existente Comissão do
Sector Produtivo (CSP) — que assegure o acompanhamento
da execução das medidas propostas, coordene as estratégias
e o planeamento e preste assessoria ao mais alto nível ao
Governo em temas de estratégia e política energética. (Quadro 30).
As novas funções da Comissão do Sector Produtivo
incluiriam a supervisão e monitorização da implementação
da estratégia definida para o sector energético (por exemplo,
supervisão da implementação do PESE), de coordenação de
estratégias e de planeamento (garantindo a compatibilidade
dos vários planos de cada subsector), de aconselhamento do
Chefe do Executivo em matérias de política energética, de
elaboração de propostas (sobre enquadramento regulatório e
legal do sector), e de apoio na definição do plano estratégico
integrado de longo prazo para todo o sector energético.
O Grupo Técnico de do Sector Produtivo será responsável por prestar apoio técnico à Comissão do Sector Produtivo. Este grupo deverá ver reforçadas as suas capacidades
com profissionais de reconhecida capacidade técnica, sobretudo em valências de Logística e Operações, Tecnologia,
Finanças e Jurídica.
O reforço do poder regulatório e a constituição de um
órgão supraministerial com poder de supervisão e intervenção no sector energético são factores críticos para alcançar
os objectivos delineados para o sector, e, consequentemente,
para a consecução do desafio de desenvolvimento de Angola.
O foco das novas funções do CSP poderá dirigir-se à globalidade da política e estratégia energética para Angola ou
centrar-se nas prioridades do Subsector Eléctrico. (Quadro 31).
Face ao maior desenvolvimento do sector petrolífero em
Angola, recomenda-se o foco no subsector eléctrico, permitindo:
Maior especialização e concentração dos recursos nas
valências necessárias à execução dos desafios do
Sector Eléctrico;
Foco do âmbito de actuação e nos objectivos a atingir, reduzindo o risco de dispersão em questões
de âmbito menos urgente no contexto actua de
Angola;
Clarificação das capacidades necessárias dos recursos da CSP a integrar as futuras equipas de Apoio
Técnico, concentrando as valências no Sector
Eléctrico.
Síntese do Programa de Acção.
Este capítulo apresenta uma síntese das prioridades de
actuação para o subsector eléctrico e para o subsector petrolífero e de gás natural.
Prioridades de actuação para o subsector eléctrico (Quadros 32 e 33)
Finalizar estrutura subsectorial de acompanhamento do
PESE e iniciar o seu processo de monitorização regular da
evolução (Ministérios da Energia e Águas e do Planeamento).
Finalizar estrutura subsectorial de acompanhamento de
investimentos e iniciar o seu processo de monitorização
regular da evolução;
Garantir a implementação do programa de investimentos, acelerando o lançamento dos projectos de construção
das energias do futuro (CCGT e hídricas) e projectos de
transporte e distribuição;
Implementar plano de reestruturação do modelo de participação pública e privada do subsector, em termos de
modelo empresarial e organizativo alvo, bem como reforçar
capacidades internas através do recrutamento e formação de
talento:
Desenvolver o enquadramento estratégico e regulamentar das energias renováveis;
Promover o reforço das capacidades de actuação do
IRSE (reforço de funções e de valências) e iniciar a revisão
do quadro regulatório para a evolução do subsector;
Definir o modelo de atracção de investimento privado
e respectivo enquadramento regulatório;
Propor evolução progressiva das tarifas que assegure a
redução da subsidiação de tarifas ao cliente final e a uniformização de preços em todo o país;
Reestruturar as empresas públicas e reforçar as valências e a eficiência em todo o subsector;
Promover uma contratualização das relações entre
agentes do subsector que assegure a sustentabilidade económico-financeira ao longo da cadeia de valor.
Prioridades de actuação para o subsector petrolífero
e de gás natural (Quadros 34 a 36):
Assegurar a Angolanização do upstream, definindo um
plano para o upgrade das capacidades de gestão e integração
de projectos em águas profundas da Sonangol (Ministério dos
Petróleos e Sonangol);
Avaliar a oportunidade de estabelecer um período de
transição para a evolução do regime regulatório das concessões no upstream (Ministérios dos Petróleos e das Finanças,
e Sonangol);
Avaliar o ritmo ideal de extracção do crude que maximize a riqueza criada para o País (Ministérios dos Petróleos
e da Economia, e Sonangol);
Definir o regime regulatório para o upstream de gás
natural (Ministério dos Petróleos):
Concretizar o reforço da capacidade nacional de
refinação, desenvolvendo uma perspectiva integrada dos
investimentos previstos e assegurando optimização do
investimento e cumprimento de prazos (Sonangol);
Concluir os projectos de curto prazo na logística, p.ex.,
pipelines e caminhos-de-ferro (Sonangol):
Rever o plano de investimento de armazenagem,
assente na racionalização das necessidades de reservas
estratégicas (Ministério dos Petróleos e Sonangol);
Avaliar a viabilidade económica de modos de transporte alternativos de derivados de petróleo — rede de pipelines (Ministério dos Petróleos e Sonangol);
Implementar de forma célere o processo de liberalização do mercado, estabelecendo um novo enquadramento
legislativo e regulatório com base nas orientações já definidas (Ministério dos Petróleos):
Definir o novo modelo tarifário que assegure a redução da subsidiação de tarifas nos combustíveis (Ministérios
das Finanças, da Economia e dos Petróleos);
Criar a nova entidade reguladora e reforçar funções e
valências no subsector (Ministério dos Petróleos):
Estabelecer com os Governos Provinciais o quadro
para acelerar o licenciamento e abertura de postos de abastecimento de combustíveis (Ministério dos Petróleos):
Rever com a Sonangol e com os potenciais novos
investidores no Retalho os objectivos de abertura de postos
Vis-à-vis as necessidades efectivas (Ministério dos Petróleos
e Sonangol);
Desenvolver a estratégia de massificação do GPL,
incluindo a definição de planos de reforço da rede de distribuição e alterações possíveis ao perfil de subsidiação
(Sonangol e Ministério dos Petróleos).
Adicionalmente, é fundamental a integração rápida do
programa nas funções do CSP que, no âmbito das suas funções, realizaria o acompanhamento da implementação das
medidas acima propostas.
GLOSSÁRIO
CCGT: Combined cycle gas turbine, centrais de ciclo
combinado a gás natural.
CDM: Clean development mechanism, acordos no âmbito
do Protocolo de Quioto que permitem aos países desenvol-
11 4571
vidos com metas de emissão de CO» o investimento em pro-
Jectos de redução de emissões em países em desenvolvimento
como alternativa a projectos de redução de emissões mais
caros nos próprios países (actualmente em revisão).
Downstream: Engloba todas as actividades da cadeia de
valor de oil & gás a jusante da exploração e produção (refinação, transporte, distribuição e comercialização).
GPL: Gás Petrolífero Liquefeito.
IRSE: Instituto Regulador do Sector Eléctrico.
Kbpd: milhares de barris por dia.
MW: Megawatt, medida de capacidade instalada para
produção de energia eléctrica.
1 megawatt (MW) = 10º watts
1 kilowatt (KW) = 10º watts
| gigawatt (GW) = 10º watts
1 terawatt (TW) = 101º? watts
MWh: Megawatt/hora, medida de energia eléctrica produzida e que corresponde à quantidade de energia utilizada
para alimentar uma carga com potência de um megawatt
durante o período de uma hora.
Pet-Coke: resíduo resultante do processo de refinação
que pode ser utilizado como combustível para geração de
enérgia eléctrica.
PPA: Power Purchase Agreement, estabelece um contrato entre o operador do sistema (comprador único) e o
investidor privado em que se garante uma remuneração do
investimento através da compra da totalidade energia produzida.
Tarifas feed-in: Estrutura de incentivos à geração que
implica o pagamento de um preço estabelecido pelo Governo,
tipicamente com incentivos e garantia de compra associada.
Upstream: Engloba as actividades da cadeia de valor de
oil&gás a montante da refinação (prospecção, exploração,
desenvolvimento, produção e transporte).
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